O que deveria ser debate público e reflexão sobre o nosso futuro virou um grande triturador sem tampa, onde se joga de tudo: política, religião, família, Carnaval, moralidade e patriotismo enganoso, e se aperta o botão do caos. O resultado é uma mistura ruidosa, mal batida e feita sob medida para confundir até quem tenta pensar.
A fórmula é velha, mas segue lucrativa. Vendem “família” como marca registrada e vendem Deus como se fosse cabo eleitoral exclusivo de uma bolha, como se Deus não pudesse pertencer a todos. No meio disso, muita gente que deveria agir como cidadã vive como torcedora: recebe uniforme, inimigo, bordão, chicote e um pacote de emoções prontas, figurinhas e “verdades” fabricadas.
Quando o assunto é sério, amor ao próximo, respeito humano, desenvolvimento, educação, segurança e oportunidades, a conversa morre rápido. Mas basta acender a faísca da polêmica, misturar pecado com Carnaval, Bíblia com palanque e patriotismo com gritaria, que surge uma multidão de especialistas em tudo. A política brasileira virou isso: menos projeto e esperança, mais disputa de quem grita “amém” ou “meu presidente” mais alto.
E não é fé. Fé de verdade aproxima. Aqui, usam Deus como arma, slogan e adesivo moral para justificar ódio, carimbar inimigos e maquiar projetos vazios, como se o nome de Deus servisse para vencer debate sem argumento.
O pior é que funciona para o time da ignorância e para os espertos que se locupletam em cima do caos. Funciona porque o Brasil sofre com um problema grave e pouco admitido: o analfabetismo funcional. Opinião sobra, mas falta leitura do mundo, físico e virtual. Falta interpretação, filtro e capacidade de reconhecer manipulação. A confusão vira espetáculo, e o espetáculo vira “verdade”.
A polarização virou negócio: dá voto, engajamento, dinheiro e palanque. Um país dividido é mais fácil de controlar e manter no eterno “nós contra eles”, enquanto os problemas reais seguem onde sempre estiveram: na porta de casa.
O Brasil virou estádio. E eleição, que deveria ser escolha racional, virou final de campeonato. Não se discute projeto: discute-se quem é “do bem” e quem é “do mal”. Não se compara proposta: compara-se quem tem mais seguidores, quem lota mais eventos, quem mente com mais coragem e quem transforma ignorância em combustível, encenando mais do que vivendo o mundo real.
E como toda torcida, a massa vibra, xinga, ataca e defende o seu time mesmo quando ele erra. A verdade deixa de importar. O voto vira grito. A democracia vira ringue. A política vira meme.
Se 2026 já começou assim, o que vem pela frente não será campanha: será guerra de narrativas, algoritmos, IA e fake news. Um desfile de falsas religiosidades, moralismos seletivos, discursos de família que não protegem família nenhuma e patriotismos que só aparecem quando convém.
O Brasil não precisa de mais mistura, nem de panelas idiotas que limitam a inteligência. Precisa de clareza. Porque quando tudo vira propaganda e mentira, Deus vira acessório. E quando Deus vira slogan, quem perde não é o candidato adversário: é o povo, a massa massacrada, iludida, usada como manobra e condenada a pagar a conta do espetáculo com a própria vida mal vivida.
DEIXEM DEUS ESCOLHER DEMOCRATIMENTE!
Josinaldo Ramos










