A radicalização política no Brasil voltou a atingir o setor produtivo. A Havaianas, uma das marcas mais tradicionais do país, tornou-se alvo de um boicote ideológico após críticas do deputado cassado Eduardo Bolsonaro a um comercial estrelado pela atriz Fernanda Torres. O episódio evidencia como o extremismo político tem extrapolado o debate de ideias e passado a mirar empresas, trabalhadores e a economia.
Em vídeo publicado nas redes sociais, Eduardo Bolsonaro convocou seguidores a boicotarem a marca, classificando a atriz como “declaradamente de esquerda” e descartando simbolicamente um par de sandálias no lixo. A manifestação gerou repercussão imediata e críticas de lideranças políticas e setores empresariais.
A Havaianas pertence ao grupo Alpargatas, que mantém em Campina Grande (PB) uma de suas principais unidades industriais, responsável por cerca de 8 mil empregos diretos. O boicote proposto atinge diretamente uma cadeia produtiva estratégica para a economia local e regional, colocando em risco a estabilidade de milhares de famílias que não têm qualquer relação com disputas político-ideológicas.
O senador Veneziano Vital do Rêgo (MDB-PB) saiu em defesa da empresa e ressaltou o papel social da marca. “Uma marca que é orgulho do povo brasileiro tem seu processo de fabricação na Alpargatas, em Campina Grande, gerando milhares de empregos e fortalecendo nossa economia. Brasileiro de verdade valoriza as Havaianas”, afirmou.

A escolha de Fernanda Torres como garota-propaganda também foi alvo de ataques. A atriz é reconhecida internacionalmente, premiada e indicada ao Oscar, e tem trajetória consolidada na cultura brasileira. Para analistas, a tentativa de criminalizar artistas por supostas posições políticas reforça um ambiente de intolerância e restringe a liberdade de expressão.
O episódio ocorre poucos dias após a cassação do mandato de Eduardo Bolsonaro pela Mesa Diretora da Câmara dos Deputados, motivada pelo excesso de faltas às sessões legislativas. Mesmo fora do Parlamento, o ex-deputado segue utilizando as redes sociais para difundir discursos polarizadores.
O caso da Havaianas evidencia um padrão crescente: o extremismo político deixa o campo institucional e passa a atuar por meio de boicotes, ataques simbólicos e campanhas de deslegitimação. O resultado é a ampliação da divisão social e a transferência do custo da radicalização para trabalhadores, empresas e a economia brasileira.
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