O debate não é mais opcional. É urgente, e precisa ser feito com coragem.
O Parque do Povo, principal vitrine do São João de Campina Grande, está, ano após ano, se afastando daquilo que o tornou grandioso: sua essência cultural.
É ali que o turista ouve falar primeiro da nossa festa junina. É ali que o Brasil observa. E é ali, sobretudo, que se constrói, ou se desmonta, a identidade do Maior São João do Mundo.
Não se trata de ser contra a diversidade musical. Nunca foi esse o problema. O ponto central é outro: falta equilíbrio. Falta estratégia. Falta compreensão sobre o papel de cada espaço e atração no contexto da festa.
Enquanto nomes fundamentais da cultura nordestina, como Alcymar Monteiro, Petrúcio Amorim, Flávio Leandro, Santana, Jorge de Altinho e até Luan Estilizado, ficaram de fora da programação principal, o palco mais simbólico do evento vai sendo ocupado por atrações que pouco dialogam com a raiz que deu origem a tudo isso.
E é preciso dizer com todas as letras: o Parque do Povo não é apenas um espaço de shows. É um símbolo. Um patrimônio cultural vivo. Um projeto pensado lá atrás por Ronaldo Cunha Lima, ainda na década de 1980, quando decidiu centralizar os festejos juninos que antes aconteciam de forma dispersa pelos bairros, mantendo nesses territórios a força das quadrilhas juninas e das tradições populares.
Ali, onde antes existia basicamente o Centro Cultural, nasceu o que viria a ser o coração do São João. Um espaço que ganhou o apelido de “forródromo”, o verdadeiro quartel-general do forró. Um território onde sanfona, zabumba e triângulo eram protagonistas, faça chuva ou faça sol. E, mais tarde, com a emblemática Pirâmide, o “xerém”, símbolo de acolhimento ao povão, garantindo que o forró nunca parasse.
Mas o tempo passou. E, com ele, vieram as mudanças.
A lógica de privatização trouxe avanços econômicos, é verdade. Mas também abriu espaço para distorções. A introdução de grandes camarotes, a ocupação elitizada de áreas estratégicas e a priorização de atrações de apelo massivo alteraram profundamente a dinâmica do Parque do Povo, que deixou de ser, em essência, um espaço democrático, de chão batido e cultura pulsante, com a cara do nosso povo. Ao mesmo tempo, a ornamentação junina espalhada pelas ruas da cidade tem se mostrado cada vez mais pobre e sem inspiração, distante da criatividade e do encantamento que já foram marcas registradas do São João de Campina Grande, enfraquecendo ainda mais a experiência cultural oferecida a moradores e turistas.
O turista que atravessa o país ou até o mundo para viver o São João de Campina Grande não vem em busca do que já encontra com facilidade em outras regiões. Ele quer o autêntico. Quer o que não existe na sua terra. Quer tradição. Quer identidade. Quer conhecer outros povos, culturas e linguagens.
E isso está sendo, pouco a pouco, diluído.
A solução não passa por excluir estilos, mas por organizar melhor os espaços. É possível, e necessário, pensar de forma mais inteligente: criar arenas específicas para shows de apelo nacional, enquanto o Parque do Povo reassumir o seu papel original como guardião da cultura nordestina e do Maior São João do Mundo.
Exemplos positivos já existem. A Vila Sítio São João, idealizada pelo ativista cultural João Dantas e conduzida por seu filho Tupac Dantas, mostra que é possível preservar tradições, valorizar a música nordestina, antiga e contemporânea, e oferecer ao público uma experiência genuína. Exatamente aquilo que deveria estar no centro do evento principal.
Fica a pergunta: até quando o Parque do Povo continuará abrindo mão da sua essência?
Porque, no fim das contas, é preciso entender o básico: angu e xerém podem vir do mesmo milho, mas não são a mesma coisa.
E o público também não é.
Tragam o Parque de volta para o povo daqui e para os turistas, aqueles que ficam satisfeitos e voltam no ano seguinte.
“Grande festa nordestina, forró a cada segundo, nós fazemos em Campina o Maior São João do Mundo.” Ronaldo Cunha Lima.








