A polarização brasileira chegou a um nível preocupante. Não basta mais discutir se uma apresentação foi boa ou ruim, se um jogador está em condições de vestir a camisa da Seleção ou se uma marca de sandálias lançou uma cor bonita ou feia. Tudo, absolutamente tudo, acaba sendo empurrado para a guerra política entre lulistas e bolsonaristas.
Nos últimos dias, vimos Alcione e Belo serem alvos de uma enxurrada de críticas após a interpretação do Hino Nacional no Maracanã, antes do último jogo da Seleção Brasileira em solo nacional. É evidente que uma apresentação artística pode e deve ser analisada, inclusive sob aspectos técnicos. O curioso é que a repercussão foi tamanha que a própria Alcione precisou recorrer às redes sociais para explicar o episódio. Em vídeo publicado no Instagram, a Marrom atribuiu os desencontros entre as vozes a uma falha técnica no retorno de áudio do estádio, afirmando que ela e Belo praticamente não conseguiam se ouvir. A cantora, com mais de cinco décadas de carreira, chegou a pedir, em tom bem-humorado, que as pessoas “não a arrasassem por aí”. Ainda assim, o debate, mais uma vez, descambou para o terreno da militância ideológica, como se a qualidade de uma artista consagrada dependesse do lado político ou das preferências que cada um imagina que ela tenha
Dias atrás, uma campanha publicitária das Havaianas, estrelada por Fernanda Torres e inspirada na expressão popular “entrar com o pé direito”, também acabou sendo arrastada para a disputa ideológica. Agora, a possível volta de Neymar à Seleção Brasileira também é contaminada por esse ambiente tóxico. Em vez de discutir questões físicas, técnicas ou a necessidade de renovação da equipe, muita gente prefere trazer para a mesa as posições políticas do jogador.
É como se o Brasil tivesse desaprendido a discordar sem transformar tudo em batalha ideológica. A arte, o esporte, a cultura e até o consumo passaram a ser vistos por lentes partidárias. E isso é empobrecedor.
Mais grave ainda é perceber que, enquanto muitos se dedicam a essas disputas intermináveis, acabam deixando de lado aquilo que realmente importa. O tempo para estar com a família, cultivar amizades, fortalecer laços, cuidar da saúde, desfrutar das pequenas alegrias da vida e buscar aquilo que verdadeiramente proporciona qualidade de vida e bem-estar. Há parentes que se afastaram, amizades desfeitas e relacionamentos estremecidos por causa de uma forçação de barra ideológica que, em muitos casos, não produz nada além de ressentimentos.
Não se trata de negar a importância da política. Pelo contrário. Ela é fundamental para a democracia. Mas transformar cada assunto em um Fla-Flu permanente é um desserviço ao debate público e um sinal preocupante de intolerância.
Talvez esteja na hora de o país voltar a discutir futebol como futebol, música como música e sandália como sandália. Porque, se continuarmos nesse caminho, corremos o risco de perder algo ainda mais importante do que uma discussão política: a capacidade de conviver com as diferenças e de preservar o bom senso.
E talvez a resposta para esse tempo de excessos esteja justamente em uma canção que atravessou gerações. Eternizada nas vozes de Roberto Carlos e dos Titãs, “É Preciso Saber Viver” nos lembra que existem coisas muito maiores do que os rótulos e as trincheiras ideológicas. Afinal, como diz a própria música, “toda pedra do caminho você pode retirar”. Saber viver é respeitar as diferenças, preservar os afetos, valorizar os amigos e entender que nenhuma ideologia deveria ser maior do que a própria vida.
Josinaldo Ramos – Portal Cariri de Verdade









