Ministro do STF também proíbe contato entre o senador e o advogado Willer Tomaz; investigação apura suspeitas de lavagem de dinheiro envolvendo empresas e casas de apostas, enquanto campanha de Flávio muda estratégia após a derrota nas urnas.
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), derrotado na eleição presidencial, enfrenta uma nova frente de pressão judicial. O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou o cancelamento dos passaportes brasileiros do parlamentar, incluindo o diplomático, e estabeleceu prazo de 24 horas para a entrega de documentos de outras nacionalidades. A decisão foi tomada na noite do domingo (25), no âmbito de uma investigação sobre suspeitas de lavagem de dinheiro.
Moraes também proibiu qualquer contato entre Flávio e o advogado Willer Tomaz, investigado no mesmo caso. Os dois confirmam que são amigos, mas negam ser sócios e rejeitam qualquer irregularidade.
Na segunda-feira (26), Flávio publicou um vídeo nas redes sociais relatando que havia visitado o pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, e que foi intimado pela Polícia Federal (PF) a entregar os passaportes.
O senador contestou a justificativa da decisão e afirmou que nunca declarou que deixaria o Brasil caso perdesse a eleição. A medida, segundo ele, estaria relacionada a declarações do irmão, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL), que, em entrevista a um podcast nos Estados Unidos, na sexta-feira (23), defendeu que Flávio deixasse o país em caso de derrota.
Investigação envolve empresas, apostas e viagens
O caso começou na Justiça Federal do Rio Grande do Sul, onde eram apuradas possíveis práticas de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e utilização de casas de apostas em um suposto esquema financeiro.
Em 8 de outubro, o processo foi encaminhado ao STF, e Alexandre de Moraes foi sorteado relator. Por ser senador, Flávio possui foro por prerrogativa de função na Corte, embora seu mandato termine em 2027.
Segundo relatório da Polícia Federal, documentos da abertura de uma conta bancária da empresa Alcazar Holdings indicavam que Flávio figurava como usuário master, condição que permitiria amplo acesso e gerenciamento da conta.
Os investigadores também identificaram um e-mail de 22 de maio de 2025 solicitando a exclusão do acesso de Willer Tomaz. Para a PF, o registro indica que o vínculo operacional relacionado à conta permaneceu até aquela data.
O relatório aponta ainda registros de festas, encontros e reuniões entre o senador e o advogado, além de documentos pessoais de Flávio encontrados no armazenamento em nuvem de Tomaz.
Outro ponto da apuração envolve viagens do senador que teriam sido custeadas pela Cathedral, empresa ligada ao advogado. Segundo os investigadores, a Cathedral dividia endereço na Ilha da Madeira, em Portugal, com a Alcazar Holdings. A companhia também é apontada como proprietária da Best Bet, ligada à Rede Loto, identificada pela polícia como a primeira casa de apostas habilitada a atuar no Rio de Janeiro, em 2023.
Jatinho liga investigados a banqueiro
A PF também analisa uma viagem realizada por Flávio e Willer em janeiro de 2025, entre Fort Lauderdale, na Flórida, e o Brasil.
O avião utilizado era um Legacy 650, de prefixo PP-NLR, com propriedade dividida em três cotas. Uma pertencia à Alcazar Holdings, vinculada a Tomaz; outra, ao empresário Laerte Cosentino, dono da Totvs; e a terceira estava ligada ao banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, por meio da empresa Prime You, responsável pela administração do uso compartilhado da aeronave.
Advogado também é investigado em caso envolvendo o INSS
Willer Tomaz aparece em outra investigação da Polícia Federal, relacionada a suspeitas de lavagem de dinheiro em um caso que envolve o senador Weverton Rocha (PDT-MA) e familiares.
Em agosto, o advogado foi alvo de busca e apreensão. A PF apurava possíveis movimentações financeiras e patrimoniais utilizadas para ocultar recursos ligados ao parlamentar.
Segundo os investigadores, Tomaz teria integrado uma estrutura de sustentação financeira e patrimonial relacionada a Weverton, com possível utilização de empresas, imóveis, aeronaves e outros operadores.
Flávio recua de contestação do resultado eleitoral
Além das restrições judiciais, Flávio Bolsonaro também mudou de estratégia após a derrota nas urnas. Segundo informações publicadas pela CNN Brasil, integrantes de sua campanha afirmaram, sob reserva, que não haverá pedido de anulação da votação.
O recuo ocorreu depois de declarações sobre a possibilidade de contestar o resultado eleitoral. De acordo com a emissora, o temor de uma possível prisão por determinação de Alexandre de Moraes teria pesado na mudança de postura. Essa motivação, porém, é atribuída a interlocutores e não foi confirmada como a única razão para a decisão.
A campanha pretende direcionar a ofensiva jurídica para supostos abusos de poder político e econômico durante a eleição, buscando questionamentos que poderiam atingir a chapa de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), em vez de pedir diretamente a anulação dos votos.
A mudança de estratégia ocorre no mesmo momento em que o senador enfrenta medidas judiciais relacionadas à investigação financeira. Flávio contesta a decisão sobre seus passaportes, enquanto ele e Willer Tomaz negam irregularidades no caso.
As investigações seguem em andamento. As medidas cautelares e os indícios citados pelas autoridades não representam, por si só, uma condenação dos envolvidos.
CARIRI DE VERDADE









