Uma mulher de 37 anos pulou da janela de um apartamento, neste domingo (8), em um condomínio no Novo Geisel, em João Pessoa, para fugir das agressões do marido. Sobreviveu por milagre, e porque viu no abismo a única alternativa possível. Foi socorrida pelo Samu, levada ao Hospital de Trauma e permanece internada. O agressor, de 42 anos, foi preso em flagrante e está na Central de Polícia. Ela ainda não conseguiu prestar depoimento.
É uma história dura. Mas não é, e esse é o ponto mais alarmante, uma história isolada.
Um fim de semana de protestos, indignação e novos crimes
O caso ocorreu justamente num fim de semana marcado por protestos em várias capitais contra a violência de gênero, impulsionados pela alta recente de feminicídios. Manifestações que se repetem, ano após ano, enquanto as estatísticas seguem em curva ascendente.
A repercussão nacional provocou posicionamento do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que fez discursos duros, chamando a violência contra a mulher de “chaga intolerável” e cobrando respostas mais rápidas dos estados e das instituições de proteção. Lula afirmou que feminicidas não podem encontrar complacência do Estado e que cada ataque deve ser tratado como emergência, não como estatística.
Mesmo assim, as tragédias continuaram. No sábado (6), um cabo da Polícia Militar foi preso suspeito de assassinar a própria esposa na PB-095. Em menos de 48 horas, dois casos brutais reacenderam perguntas dolorosas: até quando mulheres precisarão saltar do alto de prédios para sobreviver? Até quando a violência doméstica seguirá vista como rotina?
A urgência de repensar punições
Diante de casos tão frequentes, o debate sobre endurecimento penal retorna com força. Há quem defenda que o país avalie medidas como a prisão perpétua para feminicidas, proposta inspirada em decisões recentes da Itália. É um tema espinhoso, mas impossível de ignorar em meio a um cenário de violência repetitiva.
Leis existem, o que falta é chegarem a tempo
O Brasil possui legislações robustas, como a Lei Maria da Penha e a categoria de feminicídio no Código Penal. Mas, na prática, elas raramente impedem a violência antes que ela aconteça:
- Medidas protetivas demoram.
- Delegacias especializadas não funcionam 24 horas.
- Mulheres em risco permanecem expostas até que seja tarde demais.
É um Estado que aparece apenas depois da tragédia, como bombeiro, não como prevenção.
A raiz mais profunda: educação, a política pública esquecida
Outro ponto negligenciado há décadas é a educação. Especialistas são unânimes: sem ensinar respeito, igualdade e resolução pacífica de conflitos desde a infância, a violência continuará se reproduzindo.
Países que conseguiram reduzir feminicídios investiram em:
- Programas permanentes nas escolas
- Conteúdos sobre gênero e convivência
- Mobilização comunitária
- Campanhas públicas contínuas
No Brasil, tais políticas raramente passam de planos. Só viram pauta após o choque de uma nova morte ou de uma nova queda, literalmente, de uma mulher tentando sobreviver.
Enquanto isso, os números crescem, e o país falha
A falta de políticas concretas faz com que estatísticas continuem subindo, famílias sejam destruídas e mulheres precisem escolher entre ficar e morrer, ou pular e talvez viver.
É a falência de um sistema de proteção que deveria agir antes, e não depois.
O que ainda falta para o Brasil levar isso a sério?
Diante de tanta dor acumulada e de tanta inação histórica, resta uma pergunta inevitável, talvez a mais urgente de todas:
Quantas mulheres ainda precisarão saltar do alto de um prédio para escapar de seus agressores antes que algo realmente mude, na lei, na proteção e, sobretudo, na educação das próximas gerações?
Cariri de Verdade









