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PINGA-FOGO🔥: O brasileiro precisa criar consciência de classe, reconhecer sua força e deixar de ser mero torcedor

Por Josinaldo Ramos

O processo eleitoral encerrado no domingo, 25 de outubro, com a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva para um quarto mandato na Presidência da República, deixa uma grande lição: a política deve servir ao povo, e não alimentar paixões pessoais desmedidas.

Entre os mais empolgados, naturalmente os lulistas, comemora-se o tetracampeonato. Mas a Presidência não é campeonato de futebol, e o eleitor não deveria ser mero torcedor de arquibancada. Saúde, educação, segurança, emprego, renda e qualidade de vida precisam falar mais alto. Também é preciso reconhecer os avanços alcançados pelos governos de esquerda na Paraíba e no Brasil, mesmo diante das dificuldades administrativas criadas por quem não se conformou com as derrotas ou dos conflitos entre os Poderes, que muitas vezes batem cabeça na condução do país.

O país é rico em água, terras férteis, recursos minerais e terras raras. Mesmo assim, muita gente ainda luta pelo básico. Como uma nação com tantas riquezas continua enfrentando dificuldades para transformá-las em bem-estar para o povo e ainda alimenta a ideia de que precisa se submeter aos americanos do Norte? É o velho vira-latismo colonial, de quem parece não acreditar no próprio valor.

A paixão política e a cegueira eleitoral

Parte da população ainda se deixa levar por discursos inflamados, redes sociais e algoritmos que repetem as mesmas mensagens até convencer o cidadão de que um lado está sempre certo e o outro não presta para nada.

O Brasil carrega as marcas de séculos de escravidão, desigualdade e exclusão educacional. Essa história ajuda a explicar nossas dificuldades para construir uma consciência cidadã e de classe. Direitos trabalhistas, aposentadorias, saúde pública, educação e proteção social não são favores de político, mas conquistas do povo.

Ainda assim, muita gente defende líderes e famílias sem avaliar as consequências das próprias escolhas. A paixão de parte do eleitorado pelos Bolsonaro e seus chamados “mitos” ficou escancarada. Para alguns, a permanência da família no poder virou uma espécie de tábua de salvação, quase uma religião.

A situação lembra, em certa medida, o fenômeno associado ao reverendo Sun Myung Moon, líder sul-coreano que fundou a Igreja da Unificação e construiu um movimento internacional em torno de sua liderança, combinando influência religiosa, política e econômica. A comparação está no personalismo e na devoção ao líder.

A política, porém, não pode virar demonstração de lealdade a uma família, como se governar fosse herança de pai para filho.

A direita sequestrada e a fé usada como instrumento de poder

A direita é legítima e necessária à democracia, assim como a esquerda. O problema começa quando uma família conquista tamanho protagonismo que a direita passa a ser confundida quase exclusivamente com o bolsonarismo, como se tivesse até mudado de nome.

Com frases de efeito, discursos agressivos e pouca disposição para sustentar a própria verborragia com argumentos sólidos, os Bolsonaro ocuparam um espaço que poderia ser compartilhado por outras lideranças conservadoras, liberais e de centro-direita.

Combater a corrupção é necessário. Mas não se pode apresentar uma família como dona dessa bandeira e ignorar suspeitas e questionamentos que precisam ser examinados com seriedade. A direita não pertence aos Bolsonaro, assim como a esquerda não pertence exclusivamente ao PT e a Lula.

O Brasil precisa de uma direita capaz de discutir segurança, economia, liberdade e eficiência administrativa. E de uma esquerda que reduza desigualdades, amplie oportunidades e aceite cobranças. Popularidade não é sinônimo de competência, assim como falar grosso não significa pensar fundo.

Outro problema é o uso político da fé. A liberdade religiosa é um direito, e religiosos podem participar da política. O perigo surge quando um candidato é apresentado como escolhido de Deus, transformando o apoio eleitoral em suposta obrigação espiritual.

A tradição cristã valoriza humildade, honestidade, compaixão e solidariedade. Nenhum político deveria estar acima desses princípios, muito menos receber um cheque em branco — em alguns casos, possivelmente preenchido com milhões — apenas por utilizar símbolos religiosos ou contar com o apoio de pastores.

Líderes religiosos também podem ter interesses próprios, nem sempre coincidentes com os dos fiéis. Quando a devoção vira fanatismo político, a democracia e a própria religião saem perdendo.

A educação que falta para a democracia

Por trás desse cenário existe um problema estrutural: a dificuldade de formar uma consciência política autônoma.

O Brasil ainda convive com desigualdades educacionais e uma grande massa de analfabetos funcionais. O acesso à informação cresceu, mas informação não é conhecimento, e conhecimento não garante discernimento quando falta disposição para confrontar as próprias convicções com os fatos.

As redes sociais agravam o problema. Os algoritmos alimentam bolhas, repetindo opiniões semelhantes praticamente 24 horas por dia. A política vira uma cantiga de grilo: repetem-se as mesmas mensagens, os mesmos argumentos e as mesmas certezas, independentemente das evidências.

É o famoso “canário de uma muda só”: quem não muda o discurso nem renova os argumentos. Manter uma preferência política é legítimo; recusar-se a reconhecer erros é outra história.

Parte dos próprios apoiadores dos Bolsonaro começa a perceber que depositou esperanças em um projeto diferente daquele encontrado na realidade. Rever uma posição não é fraqueza, é maturidade. O preocupante é continuar preso às mesmas certezas diante de contradições que merecem reflexão.

A razão precisa vencer a paixão

Eleição não é Flamengo e Vasco de domingo. Não basta comemorar uma vitória ou lamentar uma derrota: é preciso avaliar interesses, propostas, resultados e riscos.

A direita não pode continuar refém de uma família. A esquerda não pode usar suas conquistas históricas como escudo contra críticas. E os cristãos não precisam entregar sua fé a um político. Nenhuma liderança humana deve ser transformada em ídolo, nem adversários em inimigos.

O personalismo político não começou com os Bolsonaro. O Brasil convive há séculos com famílias que tentam perpetuar influência e grupos que tratam o Estado como extensão dos próprios interesses. As novas tecnologias apenas deram mais velocidade e alcance a velhas práticas.

Felizmente, parte dos brasileiros começa a perceber que depositou confiança demais em determinadas lideranças e reflexão de menos nas próprias escolhas. Esse despertar precisa avançar, não para criar novos fanatismos, mas para formar eleitores capazes de reconhecer méritos, denunciar erros e mudar de opinião quando a realidade exige.

A democracia não precisa de cidadãos que pensem todos da mesma maneira. Precisa de cidadãos que pensem por conta própria.

Enquanto a razão perder espaço para a paixão, o Brasil continuará repetindo velhos erros, com novos personagens, novas promessas e as mesmas frustrações.

E fica a pergunta do Pinga-Fogo: quantas eleições ainda serão necessárias para o brasileiro compreender que político não é ídolo, partido não é religião e voto não é torcida?

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