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PINGA FOGO🔥: A privatização da Vale, da gestão da Seleção e do Maior São João deixam clara a mesma lição

Há décadas, o Brasil convive com uma ideia que, para muitos, virou verdade absoluta: quando uma instituição entra em crise, basta privatizá-la. Como se a simples troca do gestor ou do modelo de administração resolvesse problemas históricos.

A realidade mostra o contrário.

Da mesma forma que a iniciativa privada não é sinônimo automático de eficiência, o Estado também não está condenado à incompetência. O que faz a diferença é a qualidade da gestão, a honestidade, a liderança e o compromisso com a missão de cada instituição.

A lição da Vale

A privatização da antiga Companhia Vale do Rio Doce resume bem esse debate. Em 1997, consolidou-se a ideia de que a gestão privada seria naturalmente superior à pública. Ao mesmo tempo, muitas estatais chegavam aos processos de privatização enfraquecidas, fortalecendo o discurso de que a venda era inevitável.

O controle da empresa passou ao Consórcio Brasil, liderado pela Companhia Siderúrgica Nacional (CSN). Mas é importante lembrar que seus compradores não criaram sua riqueza. A Vale já possuía reservas minerais estratégicas, infraestrutura, conhecimento técnico e um patrimônio construído ao longo de décadas pelo Estado brasileiro.

A empresa tornou-se ainda mais competitiva, mas foi também nesse período que o país enfrentou as tragédias de Mariana e Brumadinho. Não porque fosse privada, mas porque ficou evidente que lucro jamais substitui fiscalização, responsabilidade, governança e respeito à vida. E, quando vieram os maiores prejuízos sociais e ambientais, quem pagou grande parte da conta foi a sociedade brasileira.

A conclusão é simples: o problema nunca foi apenas ser público ou privado. O verdadeiro desafio sempre foi administrar com competência e honestidade.

O Brasil deixou de jogar como Brasil

A mesma reflexão vale para a Seleção Brasileira.

O Brasil nunca encantou o mundo por jogar como os europeus. Encantou justamente porque jogava diferente. Nosso futebol era eficiente porque era autêntico. Misturava técnica, criatividade, improviso, ousadia e alegria. Era uma manifestação cultural que transformava talento em arte.

Não conquistamos cinco Copas do Mundo copiando ninguém. Foi o mundo que tentou copiar o Brasil.

Com o tempo, porém, o futebol transformou-se em uma grande indústria. Patrocinadores, investidores e interesses econômicos passaram a influenciar cada vez mais o esporte. A arte perdeu espaço para o mercado, e tentaram convencer o brasileiro de que o futebol arte havia ficado ultrapassado.

Mas futebol não é uma fábrica.

Não é uma ciência exata.

É uma manifestação humana.

Foi essa liberdade que revelou Pelé, Garrincha, Zico, Romário, Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho e tantos outros gênios.

Quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva questionou a contratação de Carlo Ancelotti, muitos viram apenas uma declaração política. Mas havia uma reflexão pertinente: se Ancelotti sequer foi o escolhido para reconstruir a Seleção Italiana, ausente das duas últimas Copas do Mundo, como poderia resolver, sozinho, problemas que são essencialmente brasileiros?

Nossa crise vai muito além do banco de reservas. Está na gestão, na influência crescente do mercado, na formação de atletas e, sobretudo, na perda da identidade que fez do Brasil o País do Futebol.

Copiar a Europa jamais fará o Brasil recuperar sua grandeza.

Talvez o problema esteja, também, no velho complexo de vira-lata do brasileiro. Mas essa é uma reflexão que a gente deixa para uma outra conversa.

O São João que não pode perder a alma

A mesma perda de identidade também pode ser percebida no Maior São João do Mundo.

O Parque do Povo, idealizado por Ronaldo Cunha Lima, nasceu como um verdadeiro santuário da cultura nordestina. Luiz Gonzaga, Dominguinhos, Jackson do Pandeiro, Marinês, Elba Ramalho, Assisão, Jorge de Altinho, Sivuca, Flávio José, a renovação do Mastruz com Leite e artistas da casa, como Os Três do Nordeste, Biliu de Campina, Amazan e Capilé, ajudaram a construir uma identidade que transformou Campina Grande em referência mundial.

Modernizar é necessário. Incorporar tecnologia também. O problema começa quando a modernização substitui a identidade.

Se o Maior São João do Mundo é um evento tão caro e complexo, por que despertou tanto interesse da iniciativa privada? Porque se trata de um dos maiores patrimônios culturais e turísticos do Brasil.

Na minha avaliação, a gestão do prefeito Bruno Cunha Lima deixou de exercer o protagonismo esperado na defesa desse patrimônio, permitindo que decisões importantes sobre a identidade do evento fossem conduzidas sob uma lógica predominantemente mercadológica. O debate não é apenas sobre quem administra, mas sobre quem preserva a essência do Maior São João do Mundo.

Nesse cenário, a Vila Sítio São João demonstra que é possível unir gestão privada, inovação e respeito às tradições. Ali, a tecnologia fortalece a cultura, em vez de substituí-la.

A verdadeira modernidade

Vale do Rio Doce, Seleção Brasileira e Maior São João do Mundo pertencem a universos diferentes, mas ensinam a mesma lição: nenhuma gestão terá sucesso se perder a identidade daquilo que administra.

Como profissional da comunicação há mais de 35 anos, continuo acreditando na inovação e na tecnologia. Mas acredito, acima de tudo, que elas devem fortalecer nossas raízes, jamais apagá-las.

Comunicação raiz não é rejeitar o novo. É utilizar as ferramentas do presente para preservar a história, a cultura e a identidade.

Porque a verdadeira modernidade não está em copiar modelos.

Está em evoluir sem deixar de ser quem somos.

JOSINALDO RAMOS

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