Por Josinaldo Ramos
Quem viveu ou ouviu as histórias do Cariri Paraibano de décadas atrás sabe o quanto a nossa realidade mudou. Houve um tempo em que estudantes da zona rural eram transportados em paus de arara, caminhões improvisados, sem conforto e sem a segurança necessária, enfrentando estradas de terra, poeira, sol, chuva e as famosas costelas de vaca, que transformavam qualquer viagem em um verdadeiro sacrifício. Era uma realidade marcada pelo isolamento e pela dificuldade de acesso à educação e a outros serviços básicos, de cidade para cidade. Isso foi melhorando com a chegada ao poder dos chamados governos de esquerda.
Hoje, felizmente, muita coisa mudou. Chegaram os ônibus escolares, as estradas melhoraram, as cidades ficaram mais conectadas e o acesso à educação cresceu. Isso precisa ser reconhecido: nós avançamos muito. Mas o desenvolvimento não pode parar. E é justamente porque avançamos que agora temos novos desafios para enfrentar.
O TRANSPORTE PRECISA DAR O PRÓXIMO PASSO
Muitos estudantes do Cariri ainda precisam sair diariamente de suas cidades para estudar em municípios maiores, onde estão universidades, cursos técnicos e outras oportunidades de formação. Lembrando que esse tipo de educação precisa evoluir ainda mais, diante do muito em que já evoluímos. Serra Branca é um exemplo dessa realidade, assim como diversos outros municípios da região. Os conhecidos ônibus escolares amarelinhos foram uma grande conquista e representam uma evolução enorme quando comparados aos antigos paus de arara, mas muitos enfrentam diariamente longas viagens pelas rodovias, em trajetos intermunicipais muito cansativos.
Por isso, precisamos discutir o próximo passo. O Brasil precisa pensar em um programa nacional de transporte estudantil intermunicipal, capaz de ajudar especialmente as pequenas cidades a oferecer veículos mais confortáveis, seguros e adequados para transportar estudantes pelas rodovias até os centros de formação. Não se trata de desmerecer aquilo que já conquistamos. Trata-se de entender que a realidade mudou e que as políticas públicas também precisam acompanhar essa mudança. ALÔ, CAROS REPRESENTANTES LEGISLATIVOS ELEITOS PELO POVO, VAMOS AGIR?
SAÍMOS DO ISOLAMENTO, MAS AINDA HÁ DESAFIOS
O desafio de ontem era tirar o estudante do pau de arara. O desafio de hoje é garantir que ele tenha um transporte digno e adequado à realidade de quem viaja diariamente para estudar. Essa é, de certa forma, a própria história do desenvolvimento do Cariri e do Nordeste: primeiro, vencemos o isolamento; depois vieram as estradas, a energia, as escolas, os hospitais, as ambulâncias, a comunicação, a internet, as cisternas e tantas outras conquistas que transformaram profundamente a vida de quem mora no interior.
Ainda temos problemas, e ninguém deve escondê-los. Existem rodovias danificadas, falta sinalização em muitos trechos, o abastecimento de água continua sendo um desafio, faltam empregos e oportunidades para os jovens, e a saúde e a educação precisam avançar ainda mais. Mas é impossível negar que o Cariri de hoje não é o mesmo de 40 ou 50 anos atrás. Nós avançamos e estamos em uma trajetória positiva que precisa continuar.
A SÍNDROME DO VIRA-LATA E OS FILHOTES DO CORONELISMO
Muitas vezes, valorizamos tudo o que vem de fora e diminuímos aquilo que temos, aquilo que produzimos e aquilo que somos capazes de construir. Esse comportamento não nasceu por acaso. Somos resultado de uma longa história de colonização, desigualdade, divisão grosseira entre os povos e exclusão social. Carregamos marcas históricas profundas, das senzalas, dos guetos e das divisões sociais que ajudaram a construir a nossa sociedade e que ainda influenciam, de diferentes maneiras, o nosso comportamento. Essas marcas também aparecem em relações comerciais e de trabalho que, em muitos momentos, ainda seguem lógicas atrasadas, com salários baixos e práticas que precisam acompanhar a evolução dos tempos. Parte do nosso comércio também precisa compreender melhor as novas relações com o cliente e com os colaboradores, o valor da conquista, do bom atendimento, do respeito, da cordialidade, da higiene e da qualidade dos serviços. Muitos ainda enxergam órgãos como o Procon e a Vigilância Sanitária como inimigos, quando, na realidade, eles também contribuem para proteger quem trabalha corretamente, garantir direitos, melhorar os serviços e estimular a evolução das relações profissionais e humanas no comércio local. Desenvolvimento também é modernizar a forma de trabalhar, de empreender e de tratar as pessoas.
O DESENVOLVIMENTO TAMBÉM É CULTURAL E INTELECTUAL
Precisamos, portanto, avançar também cultural e intelectualmente. Precisamos entender que humildade não é se diminuir, que respeito não é submissão e que educação não é aparência. Ser cortês é uma virtude, mas não significa ser fraco. Ser prudente é saber agir no momento certo, em cada situação, sem abrir mão da própria dignidade. O grande desafio é aprendermos a ocupar o nosso espaço com respeito, educação e consciência do nosso próprio valor.
Às vezes, mesmo quando avançamos, ainda existe quem queira voltar ao passado. Mesmo diante de novas oportunidades, há quem prefira a velha dependência. Mesmo vivendo em uma terra rica, algumas pessoas foram levadas, durante gerações, a acreditar que nasceram apenas para sobreviver e aceitar pouco. É uma herança social que precisa ser superada.
Quem vive nesta terra também é dono dela, junto com toda a sociedade. É dono de sua história, de sua cultura e do direito de participar do desenvolvimento e construir um futuro melhor. O desenvolvimento vai além de uma estrada asfaltada, de um hospital novo ou de uma escola funcionando. Tudo isso é fundamental. Mas desenvolvimento também é mudança de consciência.
VENCER A POBREZA E A MENTALIDADE DE DEPENDÊNCIA
É vencer a pobreza material, mas também superar a mentalidade que faz algumas pessoas acreditarem que não têm direito de sonhar, crescer e ocupar espaços. Não se trata, evidentemente, de culpar o pobre pela pobreza. A desigualdade tem causas históricas e sociais profundas. Mas séculos de exclusão também podem produzir comportamentos de dependência e uma dificuldade de enxergar a própria capacidade. E isso precisa ser enfrentado com educação, oportunidade, cultura e consciência.
Podemos ser humildes sem sermos submissos. Podemos respeitar sem aceitar a injustiça. Podemos valorizar aquilo que vem de fora sem desprezar aquilo que temos aqui. Podemos reconhecer nossos problemas sem transformar nossas dificuldades em uma sentença permanente sobre o nosso futuro. O Cariri tem problemas e o Nordeste tem problemas, mas também temos riquezas, inteligência, cultura, criatividade, história e uma extraordinária capacidade de resistência.
O CAMINHO PERCORRIDO FOI ENORME
O Cariri de hoje não é o mesmo de 40 ou 50 anos atrás. Saímos do isolamento, deixamos para trás grande parte das estradas de terra, vencemos a era do pau de arara e da ausência de eletrificação rural, conquistamos novas formas de transporte e ampliamos o acesso à educação, à saúde, à água e à informação. Ainda há muito a fazer, mas o caminho percorrido foi enorme.
Agora, o desafio é não parar no meio do caminho. Precisamos melhorar as estradas, aperfeiçoar o transporte dos nossos estudantes, fortalecer a educação, criar empregos, investir em ciência e tecnologia e modernizar a forma de pensar e governar. Mas precisamos, principalmente, aprender a nos reconhecer como sociedade, compreender o nosso valor e enxergar a grandeza das possibilidades que existem na terra em que vivemos.
O passado mostra o quanto avançamos. O futuro vai depender da nossa capacidade de vencer os velhos fantasmas, acreditar mais em nós mesmos e seguir por vias corretas de mudança e desenvolvimento de verdade. Precisamos reconhecer que temos o direito, e a capacidade, de chegar lá.
CARIRI DE VERDADE









