A seca é um fenômeno cíclico do Nordeste, mas, entre 1979 e 1984, uma estiagem prolongada provocou uma das mais graves crises de fome da história recente da região. No Cariri paraibano e em todo o Semiárido, lavouras foram perdidas, rebanhos morreram, famílias deixaram o campo e milhares de pessoas migraram em busca de água, comida e trabalho. Em 1983, saques a armazéns e cargas de alimentos ocorreram em diferentes partes do Nordeste. Em Canindé, no Ceará, cerca de 8 mil pessoas invadiram um armazém da Companhia Brasileira de Alimentos (Cobal) em busca de comida, em um episódio que se repetiu em outras áreas do Semiárido, inclusive no Cariri paraibano.
Estimativas produzidas posteriormente apontaram que aproximadamente 28 milhões de nordestinos foram atingidos, em diferentes graus, pela seca, enquanto cerca de 16,2 milhões teriam enfrentado condições próximas do chamado “limiar da sobrevivência”. Não existe, porém, uma contagem oficial definitiva das pessoas que morreram em consequência da fome. Em 1986, o Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase) realizou uma pesquisa em comunidades de três estados nordestinos e estimou que aproximadamente 700 mil pessoas poderiam ter morrido de fome durante a seca. Outros levantamentos chegaram a números diferentes. A estimativa do Ibase, portanto, é uma projeção, não uma contagem oficial.
Também em 1986, o Ibase publicou o estudo “O genocídio no Nordeste”. A entidade defendia que as mortes não poderiam ser explicadas somente pela falta de chuva e relacionava a dimensão da tragédia às condições sociais existentes e à atuação do poder público. A expressão passou a ser utilizada por entidades e pesquisadores para interpretar aquela crise de fome. Nesta reportagem, o termo é empregado nesse contexto histórico, sem significar uma conclusão judicial que tenha oficialmente classificado a seca de 1979 a 1984 como genocídio.
Quando a seca expulsou o caririzeiro de sua terra
A seca não levou apenas alimentos. Levou também pessoas. Sem condições de plantar, criar animais ou encontrar trabalho, muitas famílias deixaram suas comunidades. Algumas foram para cidades próximas; outras buscaram centros regionais e muitas seguiram para as capitais. Esse movimento contribuiu para o crescimento de cidades como São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Fortaleza e Salvador, além de outros centros urbanos do país, muitas vezes de forma desordenada, com expansão de áreas periféricas marcadas pela pobreza e pela falta de infraestrutura.
Quem chegava às cidades precisava encontrar onde morar. Famílias que deixavam o campo encontravam moradias precárias, ausência de saneamento e dificuldades de acesso à água, transporte e outros serviços. Em muitos casos, o crescimento urbano aconteceu mais rapidamente do que a capacidade das cidades de acompanhar essa expansão. Essa realidade ajudou a consolidar, durante décadas, uma imagem do Nordeste associada à seca, à pobreza e aos retirantes.
Mas essa é apenas uma parte da história. O Nordeste também mudou e continua mudando. Muitos nordestinos que um dia deixaram a região começaram a retornar, encontrando novamente em seus próprios territórios oportunidades de trabalho, produção, empreendedorismo e construção de novas riquezas.
A seca continuou, mas a forma de enfrentá-la mudou
A estiagem terminou, mas a seca continuou fazendo parte da realidade nordestina. A partir principalmente do final dos anos 1990 e dos anos 2000, começou a mudar a capacidade de enfrentar os períodos de escassez. Aos poucos, a lógica de simplesmente esperar a chuva ou depender da ajuda emergencial deu lugar a investimentos para armazenar, transportar e distribuir água, além de criar condições para que as famílias permanecessem em seus territórios durante os períodos secos.
Na Paraíba, um dos exemplos dessa mudança é a Barragem de Acauã, construída no Rio Paraíba, na região de Itatuba. As obras começaram em 1999 e foram concluídas em 2002, com participação de recursos federais e estaduais, durante os governos de Fernando Henrique Cardoso e José Maranhão. Acauã tornou-se uma importante estrutura de armazenamento de água no Estado e ganhou ainda mais relevância posteriormente, com a integração do sistema hídrico paraibano às águas do Rio São Francisco.
Em 2017, as águas do Eixo Leste do Projeto de Integração do Rio São Francisco chegaram à Paraíba por Monteiro e seguiram pelo sistema do Rio Paraíba, reforçando reservatórios importantes, como o Epitácio Pessoa, o Boqueirão, responsável pelo abastecimento de Campina Grande e de outros municípios, além da própria Acauã. A ampliação de cisternas, adutoras, barragens e sistemas simplificados de abastecimento também aumentou a segurança hídrica de muitas comunidades rurais.
A diferença em relação ao passado é significativa. Uma seca prolongada que antes poderia significar perda da lavoura, dos animais, da renda e até da própria terra passou a ser enfrentada com uma estrutura muito maior. A água deixou de representar apenas sobrevivência e passou a significar também a possibilidade de permanecer, produzir e planejar.
Da água para beber à água para produzir
O abastecimento humano continua sendo prioridade. Mas o próximo desafio é fazer com que essa segurança hídrica também se transforme em produção, alimento, renda, emprego e desenvolvimento. No Rio Paraíba, cresce a importância de discutir como a água pode beneficiar agricultores e comunidades rurais localizadas às suas margens. Isso exige irrigação, energia, assistência técnica, crédito, infraestrutura e planejamento.
Para o Cariri paraibano, essa discussão ganha importância ainda maior. O Rio Taperoá atravessa uma das áreas mais características do Semiárido e tem papel relevante na dinâmica hídrica regional. A possibilidade de ampliar, no futuro, a integração dos sistemas e alcançar também a bacia do Taperoá é um desafio que merece planejamento e debate. Essa integração não está pronta, mas pode representar uma nova etapa da segurança hídrica regional: passar de uma região que historicamente lutou para ter água para uma região capaz de usar a água também para produzir.
Um Nordeste que passou a produzir novas oportunidades
A transformação não aconteceu apenas pela água. Nas últimas décadas, o Nordeste também recebeu investimentos em saúde, educação, assistência social, habitação, saneamento, infraestrutura e energia, enquanto a sociedade passou a exercer papel mais ativo por meio das escolhas democráticas, do voto e da cobrança sobre a classe política. Esses fatores ajudaram a modificar condições sociais históricas e ampliaram as possibilidades econômicas da região.
O Nordeste passou a desenvolver com maior intensidade atividades ligadas ao turismo, à indústria, ao comércio, aos serviços, à agricultura, à energia e à tecnologia. Cidades cresceram, a rede hoteleira se expandiu e os destinos turísticos nordestinos ganharam espaço nacional e internacional. A indústria também avançou. Na Bahia, Camaçari passou a abrigar um complexo industrial da BYD, ligado à produção de veículos e tecnologia, mostrando a participação da região em novos ciclos de industrialização e investimentos de alta complexidade.
A transformação também pode ser percebida em Campina Grande, que se consolidou como um importante polo tecnológico e educacional do interior do Nordeste, com universidades, centros de pesquisa, empresas e formação profissional. Essa estrutura ultrapassa os limites do município e contribui para a formação de pessoas de várias regiões da Paraíba, inclusive do Cariri paraibano.
O avanço tecnológico, porém, também traz novos desafios. Novas profissões surgem, enquanto atividades tradicionais são modificadas ou substituídas. Muitos trabalhadores precisarão buscar qualificação, aprender novas ferramentas e se adaptar para continuar encontrando espaço no mercado. É uma transformação mundial que também chegou ao Nordeste e exige preparação.
O Cariri de hoje
O Cariri paraibano continua sendo Semiárido. A seca continua existindo, a chuva permanece irregular e ainda há períodos difíceis. Mas a realidade é diferente daquela encontrada entre 1979 e 1984. Hoje existe uma rede muito maior de reservatórios, adutoras, cisternas, sistemas de abastecimento, políticas sociais, programas habitacionais e serviços públicos.
As cidades cresceram, a infraestrutura avançou e aumentaram as condições para que as famílias permaneçam em seus próprios territórios. Ao mesmo tempo, surgiram novas atividades econômicas e oportunidades que eram pouco presentes no passado.
Isso não significa que os problemas tenham desaparecido. Ainda existem pobreza, desigualdade, corrupção, deficiências de infraestrutura e insegurança hídrica em diferentes áreas. Há desafios antigos que permanecem e outros que surgiram com o próprio crescimento. Por isso, os avanços não devem ser tratados como motivo para acomodação. A sociedade ainda pode fazer mais, inclusive por meio do voto, da participação democrática e da cobrança daqueles que administram os recursos públicos.
Da fome à convivência com o Semiárido
A seca de 1979 a 1984 deixou uma das páginas mais dolorosas da história do Nordeste. No Cariri paraibano e em outras regiões do Semiárido, famílias perderam plantações, animais, renda e, em muitos casos, a própria terra. Milhões migraram, saques aconteceram em busca de comida e a fome atingiu uma população que tinha poucas alternativas diante de uma estiagem prolongada.
Mais de quatro décadas depois, a seca continua, mas a estrutura para enfrentá-la é outra. As águas do São Francisco atravessam a Paraíba, reservatórios estratégicos podem ser reforçados e comunidades rurais contam com estruturas que não existiam naquela época. O desafio agora é avançar da água para beber à água para produzir, fortalecendo a agricultura, gerando renda, mantendo o agricultor no campo e criando novas oportunidades para as comunidades.
É o ideal? Ainda não. Mas o registro histórico precisa ser feito. É necessário comparar o Nordeste de antes com o Nordeste de depois, sem apagar a miséria e a fome que marcaram gerações, mas também sem ignorar a transformação ocorrida.
Entre a grande seca de 1979 a 1984 e o presente, houve uma mudança importante na capacidade de enfrentar a escassez de água, ampliar serviços públicos, diversificar a economia e criar novas possibilidades sociais. A seca continua. Os desafios continuam. Mas o Nordeste também mudou.
E essa mudança faz parte da história de uma região que deixou de ser definida apenas por aquilo que lhe faltava e passou a ser reconhecida também por aquilo que é capaz de produzir, transformar e construir.
CARIRI DE VERDADE









