São João do Cariri vive uma nova movimentação política. O rompimento entre o empresário Shigeaki Maracajá Ramos e o prefeito Chico de Eulina encerra uma aliança que ajudou a construir a chapa vencedora de 2024 e deixa uma pergunta no ar: o que fez uma parceria que nasceu forte chegar ao rompimento?
E aqui começa o nosso Pinga-Fogo.
Onde errou Shigeaki?
Shigeaki chegou a 2024 com força empresarial, trânsito político e capacidade de articulação. Mais do que isso: tinha a oportunidade de representar uma mudança de chave na política histórica de São João do Cariri, justamente por vir de uma trajetória diferente das estruturas tradicionais que há décadas disputam o poder municipal.
Talvez tenha cometido aí seu primeiro grande erro político.
Shigeaki deveria ter disputado a Prefeitura?
Seu nome ganhou força naturalmente e foi visto como possibilidade de renovação. Depois de conversas com o grupo do então prefeito Helder Trajano e com Chico de Eulina, declinou da candidatura e indicou sua mãe, Stella Maracajá, para ser vice na chapa.
A composição foi uma escolha legítima. Mas também pode ter representado a perda de uma oportunidade histórica. Shigeaki tinha condições de disputar a Prefeitura, assumir o comando político da cidade e tentar inaugurar um novo ciclo.
Quem pretende mudar uma lógica política precisa, em algum momento, assumir o risco de enfrentá-la. Shigeaki tinha tamanho para tentar. Não tentou.
Hoje, com a aliança rompida, fica a pergunta: teria sido diferente se ele tivesse disputado em 2024? Nunca saberemos. Mas oportunidades políticas também passam.
E onde Shigeaki erra agora?
Se a aliança acabou, o eleitor também quer saber por quê. Shigeaki confirmou o rompimento, mas ainda não apresentou publicamente os motivos. O “procede sim” confirma a ruptura, mas não explica o que a provocou.
Se houve divergências sobre compromissos, espaço político, administração, comunicação, articulação ou os caminhos políticos para 2026, é natural que essas razões sejam esclarecidas quando houver segurança sobre os fatos.
O silêncio pode ser estratégia. Mas também abre espaço para versões de bastidores.
Se Shigeaki pretende voltar a ocupar um espaço de liderança em São João do Cariri, precisará transformar o rompimento em posição política clara, e não apenas em silêncio.
E Chico de Eulina o faz?
Chico assumiu a Prefeitura após uma eleição vitoriosa e herdou uma estrutura política construída ao longo de anos. Apesar das ligações com grupos tradicionais, sua administração apresenta obras, ações e investimentos importantes.
O problema parece estar em outro lugar: Chico pode estar administrando melhor do que está articulando politicamente.
Uma Prefeitura pode entregar resultados e, ainda assim, perder aliados por falta de diálogo, comunicação e articulação.
Chico chegou ao poder com a missão de manter uma base que vinha de Helder Trajano. Mas manter uma estrutura não é o mesmo que construir uma liderança própria. Se continuar excessivamente dependente de antigos operadores e integrantes da estrutura anterior, poderá ter dificuldade para estabelecer sua própria identidade política, logo ele, que para quem o conhece, é homem de protagonizar.
Quem governa precisa ter autonomia política para governar.
O peso do passado
São João do Cariri, uma das cidades mais antigas do Cariri, tem forte identidade religiosa, patrimônio histórico e enorme potencial turístico. Também carrega uma tradição política marcada pela presença de grupos e famílias que há décadas participam da disputa pelo poder.
O problema não está nas famílias participarem da política. Está na repetição das mesmas fórmulas, dos mesmos métodos e das mesmas alianças.
É aí que aparece a necessidade de renovação.
Shigeaki tinha condições de representar essa ruptura em 2024. Mas, ao optar pela composição, acabou entrando justamente no sistema que poderia ter tentado transformar.
E Helder Trajano?
Helder também precisa entrar nessa análise porque teve papel importante na articulação que levou Chico à Prefeitura. E sua gestão enfrenta agora um episódio relevante no Tribunal de Contas.
Em 15 de julho de 2026, o TCE-PB emitiu parecer contrário à aprovação das contas da Prefeitura de São João do Cariri referentes a 2023, último ano da administração de Helder. A decisão foi unânime e apontou questões nas áreas fiscal, previdenciária, contábil e administrativa.
A defesa do ex-prefeito, porém, afirmou que pretende recorrer e apresentou outra interpretação sobre os apontamentos. Portanto, trata-se de decisão ainda sujeita aos recursos cabíveis, sem que isso permita concluir, por si só, pela existência de responsabilidade pessoal ou prática de corrupção.
O episódio não pode ser relacionado automaticamente ao rompimento entre Shigeaki e Chico. Mas reforça um desafio político para o atual prefeito: construir uma gestão com identidade própria, sem ficar permanentemente condicionada ao passado.
A pergunta que fica
Talvez o primeiro grande erro de Shigeaki tenha sido não assumir, em 2024, a oportunidade de liderar uma mudança. Preferiu a composição.
Agora, o desafio de Chico é provar que consegue liderar sem depender excessivamente das estruturas que o levaram ao poder.
E existe uma ironia nisso tudo: Shigeaki tinha a oportunidade de romper com uma lógica antiga, mas escolheu uma aliança com essa estrutura. Chico chegou ao poder por essa mesma aliança e agora precisa mostrar que consegue construir uma lógica própria.
São João do Cariri não precisa apenas saber quem rompeu com quem. Precisa entender por que romperam, o que foi prometido, o que foi cumprido, o que não foi e qual será o próximo movimento de cada lado.
Shigeaki precisa explicar melhor sua decisão. Chico precisa demonstrar mais autonomia política. E ambos precisam entender que alianças podem ganhar eleições, mas liderança, diálogo e confiança são o que as sustentam.
No fim, a discussão pode ser maior do que Shigeaki contra Chico: São João do Cariri está pronta para romper com velhas fórmulas políticas ou continuará apenas trocando os nomes que ocupam os mesmos espaços?
É essa a pergunta.
E este Pinga-Fogo está apenas começando.
CARIRI DE VERDADE – Josinaldo Ramos









