A loja que antes ocupava grandes espaços agora cabe no celular, e o comércio físico terá de encontrar novas formas de conquistar um consumidor cada vez mais digital
Durante décadas, comprar significava entrar em uma loja, olhar a mercadoria, conversar com o vendedor e sair com a compra nas mãos. Esse modelo continua existindo, mas o comércio brasileiro entrou em uma nova fase: a loja enorme de antes agora também cabe dentro do celular.
Em poucos toques, o consumidor pesquisa, compara preços, vê avaliações, escolhe, paga e recebe em casa. O avanço das vendas online está mudando hábitos, pressionando preços e obrigando empresas, principalmente pequenas e médias, a repensarem seu modelo.
Plataformas como Shein, Shopee e Mercado Livre deixaram de ser apenas alternativas para quem procura produtos baratos ou importados. Elas passaram a disputar diretamente o consumidor brasileiro e criaram um ambiente no qual preço, variedade, rapidez na entrega e facilidade de pagamento passaram a pesar cada vez mais na decisão de compra.
Os números mostram o tamanho da transformação. Segundo a FecomercioSP, o comércio eletrônico brasileiro movimentou R$ 295,6 bilhões em 2025, alta de 20% em relação a 2024. No terceiro trimestre daquele ano, as vendas online chegaram a 18,7% do volume total de vendas do comércio, segundo o FGV IBRE.
E o fenômeno não está restrito às grandes cidades.
A loja agora está dentro do celular
A loja não desapareceu: mudou de lugar, de tamanho e de formato. E essa transformação pode alcançar também os shoppings, lojas de departamento e centros comerciais. Nos próximos anos e décadas, esses espaços poderão precisar oferecer menos exposição pura de mercadorias e mais experiência, relacionamento, lazer, gastronomia e serviços.
Não significa o fim das lojas físicas ou dos shoppings. Significa que eles também terão de se reinventar. É a nova era do comércio.
Um pequeno comerciante pode fotografar produtos, anunciar nas redes sociais, receber pedidos pelo WhatsApp, entrar em marketplaces e vender para consumidores a centenas ou milhares de quilômetros.
A Shopee informou ter ultrapassado a marca de 1 milhão de vendedores locais brasileiros, incluindo micro, pequenas e médias empresas.
A Shein também avançou nesse caminho. Em 2025, a empresa informou que já contava com cerca de 30 mil vendedores brasileiros e que os produtos de sellers representavam aproximadamente 60% das vendas da plataforma no país.
Isso muda a lógica tradicional: o concorrente da loja da esquina já não é apenas a loja da rua ao lado. Pode estar em outro estado ou até em outro país e aparecer na tela do consumidor oferecendo produto semelhante por preço diferente.
O desafio não é apenas vender pela internet
Para o comércio físico, o maior desafio é acompanhar um consumidor que mudou. Antes de comprar, ele pesquisa modelos, compara preços, consulta avaliações e verifica frete. Por isso, não basta mais ter o produto na prateleira: é preciso oferecer um diferencial, seja preço, atendimento, confiança, experiência, entrega rápida, troca facilitada ou relacionamento.
As lojas de roupas estão entre as mais pressionadas
O setor de moda é um dos exemplos mais evidentes. Plataformas com preços baixos, variedade e renovação constante aumentaram a concorrência. Mas isso não significa o fim da loja física: ela precisa descobrir seu diferencial. Instagram, WhatsApp, vídeos, atendimento personalizado, entrega local e relacionamento podem transformar o estabelecimento em um ponto de experiência, e não apenas de venda.
O comércio local não precisa morrer, precisa mudar
Para o comércio do interior, há uma oportunidade: o comerciante conhece seus clientes e tem um relacionamento que um algoritmo não reproduz facilmente. O caminho é combinar essa vantagem com Instagram, WhatsApp e marketplaces. O desafio não é escolher entre loja física ou internet, mas aprender a trabalhar com loja física e internet.
O consumidor também mudou
O consumidor também mudou. Quer conveniência, pesquisa a qualquer hora, compra pelo celular, acompanha a entrega, parcela e espera facilidade para trocar ou devolver. Tem muito mais informação para decidir, e isso aumenta a competição.
Uma pesquisa recente da CNDL/SPC Brasil apontou que 61% dos consumidores digitais entrevistados compraram pelo menos um produto importado vindo do exterior nos 12 meses anteriores, estimativa equivalente a 81,2 milhões de pessoas. Shopee e Shein aparecem entre as plataformas mais utilizadas nesse tipo de compra.
Até grandes empresas estão sentindo a mudança
A transformação também atinge grandes redes, que revêm seus modelos diante de juros, consumo pressionado e migração de parte das compras para o digital. Isso não significa que todas as lojas físicas estejam condenadas. O futuro pode ser menos uma disputa entre físico contra digital e mais uma integração dos dois modelos.
O futuro pode ser híbrido
O comércio do futuro provavelmente será híbrido. O consumidor poderá conhecer o produto na loja, pesquisar pelo celular, comprar pelo WhatsApp, receber em casa e voltar para trocar, ou descobrir a empresa na internet e fechar a compra presencialmente. A fronteira entre loja física e virtual está desaparecendo.
Quem não se reinventar poderá ficar para trás
É aí que a discussão deixa de ser apenas tecnológica e passa a ser econômica. A transformação digital não significa necessariamente o fim das lojas, mas pode significar o fim de determinados modelos de loja. Algumas atividades e práticas tendem a diminuir; outras surgirão. O vendedor será também comunicador, a loja será também marca digital, o estoque poderá ser vendido pela internet e o celular será uma nova vitrine.
A pergunta que o comércio precisa fazer agora
A questão não é se Shein, Shopee, Mercado Livre e outras plataformas vão desaparecer. É o que o comércio local fará para continuar relevante diante delas. Quem insistir em vender como antigamente poderá perder espaço. Quem entender a transformação poderá transformar a internet em uma nova vitrine.
Porque talvez o futuro não seja o desaparecimento da loja.
Talvez seja o desaparecimento da loja que não soube se reinventar.
CARIRI DE VERDADE









