A primeira grande obra deve ser elevar a estima do nosso povo. No Cariri e em tantas outras regiões de nosso Estado, as marcas profundas de uma lógica coronelista que, por décadas, separou homens e mulheres em castas não declaradas, mas cruelmente evidentes. No alto da pirâmide, os senhores das grandes casas, suas famílias endeusadas e seus sobrenomes intocáveis. Na base, o povo, esmagado por disputas mesquinhas e anestesiado por bondades que só serviram para manter a miséria sob controle.
Essa divisão não só feriu bolsos e estômagos, mas principalmente mentes e corações. E é aí, no íntimo de cada um, que se construiu a mais eficaz das prisões: a baixa autoestima coletiva, travestida de humildade forçada, de gratidão pelas migalhas e de aceitação resignada. Um ciclo perverso onde os de cima seguem confortáveis, enquanto os de baixo aprendem a sobreviver no desconforto.
Neste contexto, a plenária do Orçamento Democrático Estadual (ODE), marcada para o próximo dia 6 de junho de 2026, representa mais do que um evento de escuta pública, é uma chance real de romper com essa lógica excludente. O ODE é uma ferramenta de cidadania participativa, que visa fortalecer a transparência e o empoderamento popular na gestão dos recursos públicos. A participação de todos é essencial, pois é nela que se definem as prioridades, e o povo precisa aprender que pode e deve ser protagonista dessas decisões.
O novo tempo exige mais que programas assistencialistas e discursos em palanque. Exige empoderamento do povo de verdade, aquele que nasce do reconhecimento do próprio valor, da capacidade de pensar criticamente e de agir para além do que se espera de nós. É hora de romper com a falsa humildade usada como chantagem emocional e desculpa para adiar decisões importantes. Saindo desse casulo mental, o cidadão pode, sim, participar de sua própria história com a altivez de quem sabe o seu lugar no mundo.
Com o avanço das tecnologias, ao invés de nos tornarmos protagonistas das transformações, nos vemos reféns de fake news, boatos e fofocas de WhatsApp. Em vez de debates sérios, repetimos frases prontas e nos contentamos com o raso. Enquanto isso, os problemas reais seguem nos matando na saúde, na educação, na segurança e, principalmente, na capacidade de sonhar.
Por isso afirmo: a primeira grande obra desse novo tempo deve ser a reconstrução da autoestima popular. Sem ela, todo o resto será maquiagem social. O pobre continuará a ser ludibriado com analgesias disfarçadas de bondades, e o Cariri seguirá como terra de coronéis modernos, agora de terno, gravata e redes sociais.
A quem interessa manter o povo acreditando que é pequeno demais para sonhar alto?
A quem interessa fazer das migalhas um banquete?
Está na hora de acordar.
De ocupar os espaços.
De apontar prioridades.
E de não mais aceitar nada menos do que merecemos.
EDITORIAL > Por Josinaldo Ramos










